Confie nos seus filhos

Confie nos seus filhos

Escrito em 22/02/2020
Ricardo Lana

2
Sempre ouvimos que devemos confiar nas outras pessoas, na vida, e por aí vai. Mas dificilmente alguém nos fala que devemos confiar nos filhos também.

Se tem um mantra que dirige minha vida e minha prática é esse: confie nos seus filhos. Quatro palavras simples, curtas, diretas. E fortes. Mas o que isso quer dizer em termos práticos? Por que confiar nas crianças?

Confiar na criança possibilita uma coisa muito interessante: que ela experimente e tente coisas que nunca fez antes. Coisas que não consegue fazer. Coisas para as quais (ainda) não está pronta. E esse é um ponto chave: ir além das suas capacidades atuais. E ir além do que você, do seu ponto de vista adulto, acha que ela consegue.

Para mostrar meu ponto de vista, vamos discutir um pouco sobre como a criança se desenvolve. Há uma ideia muito difundida que diz que a criança tem que ter desenvolvido certas capacidades para que esteja pronta para aprender determinada atividade – por exemplo, só vai aprender a falar quando seu cérebro estiver pronto para isso, caso tenha passado por um marco no seu desenvolvimento. No entanto, há uma perspectiva em psicologia, a histórico-cultural, que diz que é importante que a criança comece a aprender algo novo antes que tenha desenvolvido suas capacidades para isso, porque, ao aprender coisas que não consegue, a criança tem seu desenvolvimento impulsionado. E, convenhamos, é bem difícil, no dia a dia, saber se a criança já desenvolveu ou não certas sinapses no seu cérebro, né? Você sabe dizer exatamente o momento quando seu filho ficou pronto para começar a falar? A ler? A andar? Imagino que não… Não é, então, melhor partirmos do pressuposto de que a criança consegue, e nos relacionarmos com ela como se ela conseguisse? Confiarmos nela? E estarmos juntos para possibilitar condições para ajudá-la a fazer o que ela não consegue fazer sozinha? Dando suporte, dicas, estimulando que ela tente. É importante que ela faça, tente, vá além dos seus limites. É ao agir no mundo que a criança se desenvolve (até por isso o brincar é tão importante para aprender papéis sociais).

Ao confiar na criança, quando você perceber, ela estará conseguindo fazer aquilo que não conseguia fazer sozinha. E essa nova criança, com esse novo aprendizado, terá mais repertório para lidar com novos desafios que aparecem, e se abrem novas possibilidades.

Você já parou para pensar no quanto, por se considerar que uma criança não está pronta para fazer ou aprender alguma coisa, ela pode se limitar em seu desenvolvimento? O quanto inclusive a nossa sociedade faz isso, inclusive em escolas onde não se trabalha algum tema ou tarefa até a criança completar X anos ou onde se espera que as crianças todas aprendam as mesmas coisas ao mesmo tempo?

Dica do psicólogo: para entender teoricamente essa lógica de pensamento, procure pelo conceito de zona de desenvolvimento iminente proximal (ZDP) de Vigotski. Nessa lógica, a criança tem um nível de desenvolvimento atual, aquilo que ela consegue fazer sozinha agora, e um nível potencial, aquilo que ela pode aprender. No meio do caminho, está a ZDP, aquilo que está na iminência de ser desenvolvido, que a criança ainda não consegue fazer sozinha, mas consegue com ajuda de outro mais experiente naquele aspecto (pode ser, inclusive, alguém mais novo). Quando a criança é estimulada e condições são dadas a ela, o que hoje é potencial amanhã será o atual, e o foco dos relacionamentos com a ela deixa de ser quem ela é e o que consegue fazer, mas quem está se tornando e como podemos ajudá-la nesse processo de desenvolvimento.

Dica 2 do psicólogo: eu mesmo não uso o termo ZDP, mas ele é o mais presente nas traduções antigas de Vigotski. Seguindo a tradução de Zoia Prestes, professora da UFF,  falo da zona de desenvolvimento iminente, que deixa muito mais fácil o entendimento de que se trata de algo que está na iminência de acontecer, ou seja, um desenvolvimento que está prestes a acontecer.

Foto de capa: Vinicius Barros / @vbarrosfotografia