Por que os bebês nascem tão imaturos?

Por que os bebês nascem tão imaturos?

Escrito em 09/03/2020
Ricardo Lana

Você já pensou em por que bebês humanos nascem tão imaturos? E se eu te disser que isso é essencial para o desenvolvimento da espécie humana?

Em momentos de desespero, por exemplo pela privação de sono, você já se pegou pensando no tanto que seria mais fácil se o bebê nascesse já andando, mais independente? Eu já. Várias vezes já me peguei pensando em por que os bebês humanos, só os humanos, nascem tão imaturos, totalmente dependentes… Por que será que isso acontece?

A razão é evolutiva. Se formos pensar em força e agilidade, o ser humano é frágil se comparado aos grandes animais que potencialmente dominariam o planeta. Em lutas corporais, sairia facilmente derrotado por diversos predadores. Só que é a espécie que dominou o planeta em larga escala. Como? Por quê? Devido a suas capacidades intelectuais e ao uso de ferramentas, desde o domínio do fogo, do uso de pedra lascada para caçar, até veículos ou recursos de engenharia genética. Ou seja, a elementos que não estão gravados em suas características biológicas, em seu DNA. Mas que vêm de outro domínio… o da cultura.

A cultura é e foi essencial para a sobrevivência da espécie humana. E, por ela não ser inata, não nascer com o indivíduo, tem que ser transmitida pelas gerações antigas às mais novas. Então, para que a nova pessoinha que nasceu entre de fato na cultura, é preciso que essa cultura seja ensinada a ela.

E o que isso tem a ver com a imaturidade do bebê? É que, quando o bebê nasce, seu cérebro tem poucas ligações neuronais bem estabelecidas. No entanto, ele nasce com algumas predisposições genéticas claras, que são voltadas para comportamentos sociais. Por exemplo… vendo essas duas imagens abaixo, você consegue imaginar qual chama mais a atenção do bebê?

Fonte: Belsky, J. (2010). Experiencing the lifespan (2 ed). Worth Publishers.

Pesquisas mostram que o bebê presta mais atenção à imagem que lembra um rosto humano. Ou seja, de uma perspectiva biológica, os bebês (em qualquer lugar do mundo) nascem com predisposições para se relacionar com outros seres humanos, principalmente com os cuidadores primários. Você já pode ter visto que o bebê, desde recém-nascido, já reconhece a mãe, sua voz e seu rosto, e há pesquisas que mostram exatamente isso! Ao mesmo tempo, os pais são equipados com propensões que se encaixam naquelas do bebê: carregam, balançam em momentos de desconforto, se aproximam e sorriem quando há choro. Essas capacidades dos bebês e dos adultos foram identificadas em uma vasta gama de culturas. Portanto, elas parecem ter origem na história da evolução da espécie humana.

Certo, entendi. Então o bebê nasce predisposto para interagir socialmente. Mas e a cultura? Aqui vem o pulo do gato. O bebê nasce com essas predisposições, porém, é, ao mesmo tempo, muito imaturo, pouco pronto, o que significa que tem uma altíssima plasticidade cerebral (capacidade que o cérebro tem de se adaptar, se reorganizar, a partir das experiências vividas). O cérebro é muito adaptável. O que ocorre é que, desde o nascimento, as ligações neuronais vão se estabelecendo determinadas pela cultura. A altíssima plasticidade cerebral do bebê permite que ele se desenvolva, mesmo antes de começar a falar, dentro das necessidades daquela cultura em que vive. Ou seja, a plasticidade e as predisposições biológicas são apenas parte da equação. O restante é dado pela cultura. Como coloca Vigotski, as formas de pensar que temos eram, inicialmente, sociais, e vão sendo apropriadas pelo indivíduo. Isso explica por que, no planeta, existam grupos de seres humanos com trilhas tão diferentes de desenvolvimento, ainda que sejam todos humanos. As necessidades de sobrevivência no contexto brasileiro, em 2020, são diferentes daquelas de esquimós no Alasca ou mesmo do Brasil de 1800. Essas necessidades influenciam nossas formas de pensar e até mesmo nossos sentidos. Por exemplo, para os indígenas Pirahã, não há a noção de números tal qual conhecemos, e não há relatos sobre a cor azul em civilizações antigas, como a grega.

Isso significa que os Pirahã ou os gregos não teriam capacidades físicas ou cognitivas para desenvolver noções próximas às nossas? Não! A questão é que nosso desenvolvimento é moldado pela cultura. Todos (inclusive os gregos) nascem com o aparato biológico que permite perceber o espectro de ondas luminosas visível ao olho humano, mas diferentes culturas têm necessidade maior de algumas, fazendo com que se sobressaiam em detrimento de outras. Como para os gregos não havia a necessidade do azul, então essa cor era imperceptível para eles devido a questões culturais, apesar de seu aparato sensorial conseguir captar o que hoje se chama de azul.

Então, na próxima vez em que se desesperar por ver que parece ter que dar conta de tudo com um bebê tão imaturo, que tal pensar na oportunidade linda que você recebe por ser uma das principais pessoas responsáveis por favorecer seu desenvolvimento, por incluí-lo na cultura em que nasceu? E também na importância que tem seu toque, seu olhar e sua fala desde que o bebê é recém-nascido?

Referências que serviram de base para o texto:

Belsky, J. (2010). Experiencing the lifespan (2nd ed). Worth Publishers.

Keller, H., Poortinga, Y. H., & Schölmerich, A. (2002). Between culture and biology. Cambridge University Press.

Vigotski, L. S. (2001). A construção do pensamento e da linguagem (P. Bezerra, Trad.). Martins Fontes.