Como você acha que seus filhos se lembrarão dessa pandemia?

Como você acha que seus filhos se lembrarão dessa pandemia?

Escrito em 31/03/2020
Ricardo Lana

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Quando criança, você já passou por alguma situação parecida com essa da pandemia? Como você se lembra dela? E como acha que seus filhos se lembrarão da situação atual?

Quando criança, você já passou por alguma situação marcante, estranha? Como ficou a lembrança para você? Ao pensar em um dilúvio que ocorreu em minha cidade natal quando eu tinha 6 ou 7 anos, tenho lembranças de estar na rua quando começou a chuva, de, depois, estar em casa e ouvir relatos sobre pessoas de barco nas ruas. Isso tudo ocorreu? Não tenho certeza. Mas tenho certeza de que minha lembrança é marcada por segurança, por não ter sentido medo. Segurança por morar em uma casa na qual não entrou água e também pela tranquilidade de minha família ao lidar com a situação. Trazendo isso para hoje, no momento da pandemia do COVID-19, como as crianças se lembrarão dos acontecimentos e de suas vivências?

Antes de ler o restante do texto, pare e faça uma reflexão: da forma como as coisas estão, como você acha que seus filhos se lembrarão desse período? Quais são os sentimentos que você acha que eles estão experimentando? Desses sentimentos, quais você acha que ficarão marcados? Quando digo marcados, penso tanto naquilo que eles conseguirão retomar mais tarde (como eu ao dizer dos barcos pela cidade) quanto nas sensações físicas e emocionais que marcam as lembranças (meu sentimento de segurança). Você acha que vai ser uma lembrança boa, de segurança? Ou de medo, de apreensão?

Como podemos cuidar para que as lembranças sejam positivas, na medida do possível? Até que ponto temos controle sobre isso? Quais as oportunidades que essa situação nos dá para a criação das crianças? Para abordar esses aspectos, convido a pensar que a criança se desenvolve a partir do meio em que vive – ou seja, suas formas de pensar e agir estão, inicialmente, no meio social, e são apropriadas pela criança, de forma ativa. Então a criança, na situação do confinamento, terá os adultos de referência como bases para seu comportamento, o que dita o tom afetivo das vivências do período. A criança percebe o clima presente nos espaços e situações e acaba por elaborar as situações de alguma forma. Inclusive, ela tende a imitar as reações do adulto – você já deve ter reparado que, ali pelos dois, três anos, começam a ficar evidentes comportamentos, gestos e expressões faciais idênticos aos dos pais… pois é, isso também se dá em um nível emocional. E, no confinamento, talvez fique bastante evidente como mudanças no humor da casa e das crianças se entrelaçam, se influenciam.

Então, a partir disso, pode ser interessante que você pense sobre como está o clima em sua casa. Aliar isso a como você quer que seus filhos se lembrem da quarentena já possibilita pensar sobre as situações. Se você acha que o clima está tenso, com muitas preocupações e conversas sobre doença e morte, a que tipo de memória você acha que isso convida? E se prevalece o sentimento de como é bom poder passar mais tempo em família? Sei que é cansativo, mas quando as coisas ficam mais leves para a criança, ficam mais leves para todos, acredite. Inclusive, dividir com as crianças seus sentimentos, seu cansaço e estresse, inclusive, pode ajudar a todos os envolvidos – você fica mais atento e acolhedor com seus sentimentos e as crianças vivenciam mais nuances das situações vividas. Experimente compartilhar seus sentimentos (positivos e negativos) com seus filhos e pedir sua ajuda nos momentos difíceis. É bem provável que eles te surpreendam e façam coisas que vão além do que você espera…

Sobre a pandemia em si, eu considero interessante abordar as coisas, inclusive com brincadeiras, de forma a mostrar como as pessoas são todas interligadas e que ficar em casa é uma forma de proteger a si mesmo e aos outros. Focar no que está sendo feito para a proteção é algo que pode ajudar na saúde mental dos adultos e, consequentemente, das crianças. O foco fica nos pontos positivos, mais que nos possíveis danos. E reforça o viés comunitário da situação.

As possibilidades para fazer isso são muitas… Dá para pensar em coisas como um escudo poderoso que se ativa só dentro de casa, usar chamadas em vídeo para mostrar que há outras pessoas na mesma sintonia, pensar em cada um da casa como um herói que quer proteger outras pessoas… vamos pensar juntos em estratégias? Conta também como você tem feito em casa, como tem sentido seus filhos… vamos criar uma rede de experiências?

Foto de capa: Fabio Caffe

PS: se a situação estiver muito pesada, não passe por ela sozinho ou sozinha. Há muitos bons profissionais oferecendo serviços especiais durante o período de isolamento social. Me mande mensagem para conversarmos mais através do Instagram ou do Facebook @ricardolanapsico.