Eu sei, eu sei… você tem medo dentista (mas não quer que seu filho tenha).

Eu sei, eu sei… você tem medo dentista (mas não quer que seu filho tenha).

Escrito em 07/05/2020
Karoene Denardi Vanzela

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Embora tenhamos gerações traumatizadas, podemos criar futuros adultos livres da mão suada e do pavor que o barulho da broca causa. Eu te ensino como.

Há oito anos trabalhando em consultório não teve UM dia que não escutei essa frase:

– Dra. eu não gosto de dentista.

Se eu levasse para o lado pessoal, minha autoestima estaria no chão.

Abro um sorriso e respondo: eu sei, você e todo mundo, fique tranquilo.

Acabei criando algumas teorias para entender o medo dos pacientes, afinal de contas uma criança de 5 anos precisa estar calma para receber anestesia, e uma mulher de 25 anos precisa ter calma para receber a notícia que o dente será extraído.

Mas por que tanto pânico, medo, fobia de dentista?

  1. A linha clássica é das experiências anteriores negativas:

A odontologia avançou a passos largos no controle da dor dos pacientes. Antigamente era comum extrair um dente ou fazer tratamento de canal sem anestesia.

Então tínhamos três dores evidentes: a primeira, antes de ir ao dentista, a dor durante o tratamento e um pós-operatório sem analgésico.

Um processo que envolve três momentos dolorosos distintos é, no mínimo, marcante. Os pacientes relatam que lembram da dor que sentiram há 30 anos atrás…muitos se ausentaram do consultório por anos, agravando ainda mais os problemas bucais.

Pode incluir na conta das experiências anteriores, a figura típica retratada como dentista de antigamente: um senhor, grisalho, com uma mão enorme, e normalmente sem paciência para explicar os procedimentos.

Claro que exceções existem.

Temos os senhores grisalhos ainda hoje, os calmos e os impacientes, mas temos também a introdução das mulheres no mercado de trabalho, que dominaram 90% da especialização em Odontopediatria, nicho esse que tem o primeiro contato com o ambiente odontológico.

  1. Constrangimento

A vergonha da condição bucal que o paciente se encontra é também um fator que alimenta o medo. A boca é uma parte do corpo muito íntima, fazendo com que as pessoas se sintam constrangidas de expor para um profissional, além do fato que revela a condição de higiene e saúde daquele momento da vida.

Acredite, paciente, para nós, dentistas, cárie é instrumento de trabalho.

Se você não escovou o suficiente ou deixou a consulta de rotina para o intervalo de 5 anos, o máximo que você nos trouxe foi mais trabalho.

Eu quero que você tenha uma saúde bucal perfeita, independente do estágio de doença que você chegou até mim. O importante é estar no consultório.

  1. Sentimento de perder o controle e desamparo

O ser humano fica em paz com a rotina, previsibilidade e sensação de controle. Os últimos tempos mostraram que isso não existe.

Quando deitamos o paciente na cadeira odontológica, a visão dele é o rosto do dentista a poucos centímetros do seu, muitas mãos trabalhando ao mesmo tempo com materiais barulhentos e instrumentos desconhecidos dentro da boca.

Zero controle.

Esse sentimento pode desencadear crises de ansiedade que afastam os pacientes do consultório. É preciso identificar esse comportamento e trabalhar com a técnica mostrar, falar e fazer, para tentar repassar o mínimo de previsibilidade para o paciente.

  1. A própria dor

Medo que doa.

Anestesia, a broca, o parafuso, o sugador, a boca aberta.

Pacientes tem medo do barulho do motorzinho.

Do jaleco, da máscara, do cheiro de dentista.

A farmacologia é uma aliada no combate a dor. Podemos medicar antes, durante e depois dos procedimentos.

As técnicas de anestesia também se adequaram aos pacientes temerosos, e praticamente não se sente a famosa picadinha.

A possibilidade de sentir dor dispara mecanismo de fuga no paciente, aumento da adrenalina e sensações físicas como mão suada, mal-estar, ânsia de vomito… e claro, o medo.

Eu tenho medo, mas não quero que meu filho tenha.

Entendo.

Você não quer que seu filho passe por experiências negativas que o afastem do consultório. Para que isso aconteça, o trabalho começa em casa, com vocês, pai e mãe traumatizados.

– Levar as crianças para consulta de rotina, ainda bebês, faz com que o ambiente se torne familiar.  A crianças vai criando laços com o dentista, aos poucos, até a confiança estar bem estabelecida. Chegar ao consultório, pela primeira vez, com a criança chorando de dor, não é o cenário mais favorável para a construção de pontes. Os traumas podem iniciar nesse momento.

– Guarde suas angústias para você! Não apavore seu filho com expressões do tipo: ´vai doer´, ´vai tomar anestesia´, ´quem mandou não escovar´.

Se a criança, em média até sete anos, teve uma cárie, a culpa é dos pais que falharam na escovação. Pode não doer, pode não precisar de anestesia, e em casa você desencadeou uma ansiedade desnecessária e imprudente.

– Dentista não é castigo!!! Preciso defender nossa classe que muitas vezes é usada como moeda de troca: se não escovar direito vou te levar ao dentista.

Acredite, escutamos isso com maior frequência que gostaríamos. Nós somos instrumentos para resolver um problema, não somos o bicho papão que não sai do telhado, muito menos a bruxa má que tem mau hálito.

– Exemplos. Funciona para a Odontologia também. Escove os dentes na frente do seu filho, convide a criança para passar fio dental, escolham a pasta de dente em família. Tragam a escovação para o calendário do dia. Dedique tempo para escovar os dentes do seu filho.

Podemos formar uma geração livre de cáries e quem sabe, daqui 20 anos, seus filhos entrem no meu consultório dizendo: ´Dra., voltei, eu gosto daqui. ´

Minha autoestima agradece.