Música Para Nossos Ouvidos

Música Para Nossos Ouvidos

Escrito em 09/06/2020
Angelo Bernardo

Quantas vezes ouvimos falar ou falamos que nossos filhos são muito musicais? Existe alguma referência pra gente dizer isso? Acho que precisa ser a deles.

Neste exato momento to ouvindo a música “Torn” da Natalie Imbruglia. Na verdade, eu tava assistindo o videoclipe e aí comecei a viajar, mas viajar muito mesmo! Eu amo música, na verdade eu tenho uma séria dificuldade de me encaixar numa “tribo”, pois eu não consigo ser o roqueiro que odeia funk, pagode e sertanejo, nem um desses que odeia rock ou qualquer outro grupo de pessoas que só ouve um estilo musical. Eu adoro um bom samba, um pagode de sofrência, um funk, gosto muito de blues, punk e até J-Rock, o que importa é encaixa no momento que eu tô na hora. Nesse momento eu tava ouvindo uma playlist dos anos 90 e me sentido muito nostálgico, acho que em tempos de pandemia nostalgia só perde pro medo, mas esse não é o tópico aqui.



Então qual é a parada? Bom eu viajei na seguinte questão, como será que meu filho vai desenvolver seu gosto musical? Bom eu realmente não sei dizer eu sei como eu desenvolvi o meu. Eu acho que virei essa quimera musical porque eu sempre escutei de tudo o tempo todo. Um lugar que eu ouvia muita música mesmo era no carro do meu pai. Lembro do Del Rey azul e as fitas cassete que ele fazia dos discos Samba e Pagode que depois viraram CDs Samba e Pagode e olha só de onde veio meu gosto pra samba e pagode. Meu pai alternava bastante as músicas que ele ouvia, variava bastante, mas sempre acabava caindo nas músicas do tempo dele, mas essa época eu me lembro mais, foi nessa época que eu conheci Zeca Pagodinho, por exemplo. Claro que eu conheci os três malandros pelo meu pai. Um dia eu lembro que a gente foi numa loja de discos comprar o disco “Presidente caô caô” do Bezerra da Silva, que eu acho que ainda tá lá em casa. 



Isso foi na era do vinil, mas eu lembro como se fosse ontem o dia em que ele me levou pra comprar o cd player lá pra casa. Era grandão e tinha que conectar no aparelho de som. Meu padrinho tinha emprestado uns cds pro meu pai na época e eu lembro de dois que eu gostei muito quando ele tocou pela primeira vez, foi o primeiro da Marisa Monte e um do Robert Cray. Esse segundo meu pai botava pra ouvir toda hora, que época boa! Nesse pacote veio um dos maiores tesouros musicais que passaram lá em casa. O VHS duplo de um show do Roger Waters celebrando a queda do muro de Berlim, onde ele e diversos convidados tocaram o “The Wall” completo. Era um show impressionante que anos depois eu consegui assistir ao vivo, mas nesse VHS eu lembro muito de ”Another brick in the wall” cantado pela Cindy Lauper, foi uma excelente escolha de intérprete!



Nisso o tempo foi passando e eu passei a adorar ir em lojas de discos. Ia muito com meu pai e a gente comprou muita coisa juntos. Depois de um tempo elas foram deixando de existir, dando espaço para grandes lojas que vendiam de tudo, incluindo CDs. Eu sempre aproveitava as promoções para tentar conhecer coisas novas, aproveitando dicas dos amigos e dos programas de videoclipes. Pois é, nessa época a MTV tocava música, muita música, e eu conheci muita coisa por lá. Depois disso eu também garimpei muita coisa nos P2P da vida. A gente levava um tempão pra baixar uma música só, mas era divertido pra caramba.



Hoje eu vivo nos streamings de música e no rádio quando to de carro, mas quando João Pedro chegou eu acabei indo pra esse lado musical com ele. Eu ainda to melhorando minhas habilidades de contação de histórias, mas cantar eu sempre canto. Fiz uma playlist com as músicas que ele curte e com músicas pra ele dormir. Dessas eu sei cantar boa parte e fico bem feliz que ele já sabe cantar também. Acho que se eu tenho uma lembrança disso é que tem uma música que eu sempre cantei pra ele “sombra boa” e quando eu pus o vídeo pra ele com seus 1 ano e sei lá 8 meses ele gritou todo animado “SOMBA BOA!” Nossa, eu fiquei feliz demais dele ter reconhecido a música.



Eu vejo muitas pessoas falarem que seus filhos são musicais, que gostam de rock ou das musicas que eles gostam seja lá quais elas forem, mas eu acho que esse referencial tem que ser dele. Eu vou apresentando as coisas e vejo se ele curte, se não curtir, ok vamos pra outra. Quer ouvir um milhão de vezes a mesma música? Tudo bem ué, eu mesmo faço isso hahahah. Eu acredito que arte não pode ser forçada a ninguém e nem deve ser limitada ou higienizada. A garotada pode e deve ouvir tudo, se tiver algo a problematizar a gente problematiza, explica, pois é assim que se educa e educar é um ato político, só pra lembrar.



Dito isso, fica um recado no meio dessa nostalgia toda: não vamos tornar algo prazeroso mais uma expectativa. Deixar nossas crias livres pra gostar do que eles quiserem é essencial pra eles e para nós, afinal expectativas só levam a frustrações.