O jogo tá mais pra gente

O jogo tá mais pra gente

Escrito em 20/06/2020
Leandro Ferreira

Vi Pedro passar correndo pra dentro de casa, e antes que eu pudesse ralhar com ele qualquer coisa sobre como não era bacana correr dentro de casa, ouvi o grito: Eu vou de Kobe Bryant hoje, cansei de perder ontem.

Eu: Hu! Pois é. Peraí que vou só terminar esse parágrafo aqui.

Ele: Tá bom. Tô ligando aqui.

Eu: Blz.

Depois de um tempo…

Ele: Vem que vou começar.

Eu: Tá bom.

Sentei no sofá do lado dele.

Eu: E aí meu filho como foi na aula hoje?

Ele: Ah, foi bem.

Eu: Tudo tranquilo? Aprendeu alguma coisa?

Ele: Ah sim, na aula de história a gente estava vendo sobre a Cabadagem.

Eu: Cabanagem ou Cabanada?

Ele: Cabanagem, é.

Eu: E aí?

Ele: Ah, aquilo né. Não tinha comida nem onde morar, daí é claro que daría nisso.

Eu: Pois é, muito triste. Mas você sabe que isso acontece até hoje, né?

Ele: É, pois é.

A partida começa.

Ele: Mas, ô pai. Tinha uns amigos meus rindo durante a aula.

Eu: Como assim rindo? Durante a aula ou durante a aula de história?

Ele: Durante a aula de história. Eu não entendi. Porque eu estava tao impressionado, sabe? Que não conseguia rir não.

Eu: Pois é meu filho. Você deve se orgulhar de ter sensibilidade pra essas coisas. Isso é bom. Eu também fiquei triste quando estudei Cabanagem.

Depois de um tempo jogando

Ele: Nossa, achei que a gente não iria ganhar nunca mais. Tá mais pra gente do que pra eles, né.

Eu: Verdade.

Fim da partida, Ganhamos.

Ele: Pai, todo mundo morre, né?

Eu: Sim meu filho, muito normal isso acontecer. Hahahahha. Mas, por que?

Ele: Um garoto da sala, disse que tem gente que tem que morrer mesmo.

Eu: Nossa, que triste. Ele falou isso alto?

Ele: Não, não. Foi só no grupinho deles mesmo. Mas eu ouvi, por que eu sento no canto perto deles. Enquanto ele falou isso ele tava… meio que olhando pra mim.

Eu: humm, entendi, e como você se sentiu?

Ele: Ah, normal. Mas… por que que as pessoas tem que morrer?

Eu: Ah meu filho. Entao…

Ele: Pai, a explicação curta por favor.

Começa outra partida.

Eu: Haahahah, tudo bem… Então, o corpo d’a gente vai ficando mais fraco a cada dia que passa, por que a gente vai usando ele. Daí as coisas vao ficando mais difíceis de se fazer e o gasto de força é maior pra.. por exemplo, levantar de uma cadeira. Veja sua avó, já está bem velha. Ela custa a se levantar da cadeira, não é?

Ele: É… mas assim, por que tem gente que morre antes? Tipo, a vó já está velha, né. E, eu gosto muito dela, mas… lembra quando a gente conversou, né, sobre ela estar velha. Eu sei que ela já tá velhinha, né?

Eu: Olha meu filho, depende. Às vezes é um acidente de carro, ou pode ser um problema de saúde. Ou morreu por que alguém matou.

Ele: Humm é verdade. Mas por que tem gente que… tipo… parece que está torcendo pra outras pessoas morrerem?

Eu: Ah, isso é complicado. Nem sempre todo mundo consegue se sensibilizar com os outros. Mas torcer pra isso não é o melhor a se fazer.

Ele: É por que… quando o… meu colega de turma… falou… de morrer… ele falou…

Eu: O que ele falou? Repita o que ele falou.

Ele: Que…: meu pai disse que esses pretos todos deveriam morrer.

Eu: Você, não vai, morrer.

A partida segue. O jogo tá mais pra gente.

Ainda que muito provável, este microconto não ocorreu com o autor enquanto pai. Mas enquanto filho, em contextos, formas e conteúdos diferentes, isso virou rotina. O que não deveria ser pra nenhuma criança.

CRÉDITOS

Texto: Leandro Ferreira

Arte: Lucas Gomes

Revisão: Diogo Toledo e Pedro Gurgel