O estranhamento das cores de pele

O estranhamento das cores de pele

Escrito em 20/11/2020
Leandro Ferreira

Este texto se aplica à todas as crianças. Sim. A todas as crianças. Por que de alguma forma ou de outras elas se depararam com cores diferentes. Afinal de contas, estamos no Brasil, e as pessoas aqui tem cores bem diferentes umas das outras. Mas também é um texto para os pais e mães das crianças. É um texto que motive os pais a não ceifarem o comportamento natural de reconhecimento de cores de pele que por ventura eles virem. Isto por que perceber as diferentes cores que as pessoas têm, faz parte, no meu entendimento, de compreender a complexidade do mundo. O quão o mundo é complexo e bem diferente, e é no meio da diferença que enxergamos aquilo que nos une. Daí, podemos pensar em como adequar as nossas diferenças face as nossas semelhanças.

Imagine a seguinte situação. Sua filha ou seu filho chegam em casa e fazem um comentário referente a um outro aluno que é mais escuro ou mais marrom e que acabou ganhando uma competição de álgebra. Temos aqui várias questões a serem discutidas, certo? Certo. Mas o foco aqui é somente o tom de pele do outro aluno. Crianças ainda não foram contaminadas com o racismo velado ou institucionalizado, pra elas conta mais o que estão vendo enquanto as características que alguém tem. O aluno provavelmente é mais escuro que ela ou o mais escuro da sala de aula. Não necessariamente seria um “negão, negão”, como diz o xucro popular. Talvez seja marrom, por que afinal de contas essa é a cor que, dentre o ainda limitado reconhecimento de cores, ela consegue perceber. Portanto, há um problema aqui em reconhecer a cor da pele dele? Não, não há. Então você que é pai pode se perguntar, dependendo do seu grau de familiaridade com as discussões de raça: será que meu filho está tendo uma atitude racista? Será que a escola é racista e estimula o reconhecimento e diferenciação de cores deles? Por que não enxergar todos enquanto seres humanos, afinal de contas, estamos no Brasil, todo mundo aqui tem sangue negro?

De certa forma, estes questionamentos estão corretos. Repito a sabedoria acadêmica, “são as perguntas que movem o mundo”. Mas daí em diante, como lidar com uma situação destas? Querido leitor, você acredita que ela perceber a diferença de cores é perverso? Então este é um probleminha seu. SEU. Talvez você não saiba, mas o mundo tem inúmeras tonalidade diferentes de pele, e seria mais preocupante se seu filho não percebesse isso. Então, caso venha a repreendê-la sugiro pensar o quão preconceituoso você está sendo por acreditar que não deveríamos falar de cor pois somos todos iguais. O que nos leva a uma outra discussão.

Não somos todos iguais. Por mais incrível que possa parecer, somos bem diferentes em cor. A desculpa de que somos iguais parece ser uma forma de ignorar os problemas apresentados por uma parcela da sociedade, as conhecidas MINORIAS, e colocar uma mordaça sobre suas reinvindicações. Por que fundamentalmente, ainda que boa parcela da população brasileira possa realmente ter alguma ascendência negra, nem toda ela interage em sociedade como se fosse negro. Nem todas as crianças são chamadas a observar os elementos que são representativos de quem elas são. Nem mesmo os pais destas crianças conseguem interagir em sociedade a partir de uma ancestralidade, pois ela foi socialmente suprimida. Então, se seu filho ou filha falar algo nesse sentido, saiba que está tudo bem, ele não tem problema algum. A bem da verdade, você deveria estimula-lo a saber das diferenças sociais que existem na sociedade. Talvez a pergunta: e quantos meninos e meninas mais escuros tem na sua sala aula? E quantos deles ganham competições de álgebra? Seriam mais interessantes em se fazer. É claro que não precisa ser nesse sentido, mas seria mais viável identificar se a sua cria está inserida num universo que compartilhe das diversas diferenças que é essencial a realidade humana.

Portanto, vale sempre a pena refletir sobre os seus preconceitos raciais e sobre a forma como o mundo foi forjado e ainda o é, antes de reprimir um comportamento que lhe parecer ser racista de uma criança. Lide com o seu preconceito racial antes de lidar com alguém que nem sabe o que é isso. O estranhamento faz parte do encontro entre pessoas diferentes, não é algo ruim. A partir daí, o que deve ser estimulado é a respeitosa e empática ação de reconhecer que todas as crianças são formadas por sua história, ainda que curta. Faz parte da educação que os pais promovem estruturar um lar que permite mais estranhamentos.