Sobre Ter Vários Filhos e a Teoria do Pato

Sobre Ter Vários Filhos e a Teoria do Pato

14/01/2019
Thiago Queiroz

Ter mais de um filho é cheio de surpresas deliciosas e apaixonantes mas às vezes os desafios são tantos que o sentimento de pato chega pra valer no coração.

Esse é, oficialmente, o primeiro texto que escrevo como um pai de três filhos. A Maya tem pouco mais de 1 mês de vida, mas já parece que eu sou pai dela há anos.

Caso você não me conheça, eu também tenho mais dois filhos: Dante, de 5 anos, e Gael, de 3 anos. Eu já mudei muito desde o nascimento do meu primeiro filho, mas também sinto como se tivesse mudado ainda mais só nesse último mês.

Uma dessas mudanças foi uma percepção de vida. Na verdade, foi a conscientização de uma limitação que já vinha aparecendo aqui e acolá, mas eu me recusava a percebê-la e abraçá-la. É o que eu chamo de Teoria do Pato.

Pois é, o pato. Sabe esse animal fofinho? Bem, há um ditado que diz:

O pato nada, o pato anda e o pato voa e o pato não faz nada direito!

É bem assim que eu venho me sentindo com a paternidade, e talvez você também se sinta assim na sua paternidade ou maternidade. Eu já me sentia assim quando eu era pai apenas do Dante e do Gael, mas hoje eu tenho toda certeza de que eu estava em negação.

Pense comigo: com mais de um filho, você percebe que é capaz de fazer muitas coisas diferentes, com os seus dois — ou três, ou mais –filhos, mas a sensação de que você nunca será suficiente para todos os seus filhos é uma sensação que não larga você.

Por muito tempo, eu pensei que isso era só um fator do cansaço de ser pai e mais um monte de outras coisas que eu inventei de ser, mas na verdade, é algo bem inerente à vida de quem tem filhos. O problema é que eu achava que assumir isso para mim mesmo era uma certa derrota. Era admitir que eu não era um pai bom o suficiente.

Mas será que é uma derrota mesmo? O que é ser um pai bom o suficiente?

Acontece que, com dois filhos, eu até conseguia jogar esse sentimento para debaixo do tapete, mas o nascimento da Maya, especificamente, foi o evento que fez a minha ficha cair: eu sou um pato.

Eu ainda escreverei sobre como foi a minha experiência no nascimento da Maya e tenho certeza que a Anne, em breve, fará o relato de parto dela — como eu sei que você talvez esteja interessado em saber. Contudo, o que eu posso adiantar para você foi que a sensação de que eu era um pato foi bem presente durante todo o parto.

Durante a maior parte do parto, a Anne ficou no nosso quarto. E, apesar de os meninos terem aparecido no quarto e visto um pouco da Anne durante o trabalho de parto, eles passaram a maior parte do tempo na sala, seja brincando ou assistindo televisão.

Eu ficava revezando entre estar com a Anne e estar com os meus filhos. E, claro, havia uma equipe acompanhando a Anne, então tínhamos amigos e profissionais que podiam ajudar tanto com a Anne quanto com os meninos.

Então, nos momentos em que eu estava com a Anne, eu podia vivenciar aqueles momentos tão especiais com ela, observando as contrações indo e vindo, dando o apoio que eu poderia dar a ela, e ficando admirado pela beleza e potência da Anne. Por outro lado, eu não conseguia parar de pensar também que, nesses momentos, eu não estava com os meus filhos e que eles provavelmente precisavam do pai deles naquele momento.

Já nos momentos em que eu estava com os meninos, era maravilhoso porque eu podia brincar com eles e tranquilizá-los com relação a tudo o que estava acontecendo na nossa casa. Só que, novamente, eu sentia que deveria estar com a Anne.

Em resumo, eu não me sentia inteiro em nenhum momento. Ou eu estava pensando nas crianças, ou na Anne, ou na piscina que precisava ser enchida com água quente.

Ao longo desse primeiro mês de vida, a sensação de pai pato também continuou. Não tão intensa quanto foi durante o nascimento da Maya, mas era inevitável não sentir isso quando eu precisava cuidar da bebê, ou quando precisava cuidar do Gael que se machucou, ou quando precisava intermediar uma das inúmeras brigas dos meninos.

Hoje, eu já consigo pensar mais gentilmente sobre isso. Não me sinto extremamente bem por não conseguir estar presente em todas as demandas, mas também não me sinto mais tão culpado. É, na verdade, um processo que eu preciso me lembrar constantemente de que estou fazendo o meu melhor e que eu não sou perfeito.

A propósito, penso que, olhando o copo meio cheio, essa é uma das coisas positivas dessa história toda, pois os nossos filhos podem vivenciar e entender a nossa humanidade. O Dante e o Gael já percebem que nem eu, muito menos a Anne, podemos atender prontamente a todas as demandas deles, mas que estamos fazendo o nosso melhor.

Só não se engane pensando que eles entendem e acolhem isso como um adulto faria. Eles ainda são crianças e vão demonstrar suas insatisfações, frustrações e demandas de acordo com a idade em que se encontram.

É difícil, mas fica aqui a minha sugestão: abrace o seu pato interior. Eu tento abraçar ele todos os dias.

E obrigado, Maya, minha filha. Você mal completou 1 mês de vida e já está me ensinando um monte de coisas.