Relacionamento Entre Irmãos

Relacionamento Entre Irmãos

18/01/2019
Thiago de Moraes

Sobre como o relacionamento entre nossos filhos pode ser muito melhor do que imaginamos.

Minha única irmã é sete anos mais velha. A minha experiência de relacionamento entre irmãos é um pouco distante. Universos diferentes em etapas da vida diferentes. Com filhos e sobrinhos, as distâncias diminuíram, mas nunca tive embasamento para entender a vivência que meus filhos têm e terão.

Sou pai do Frederico (4a) e do Henrique (1a). Irmãos com pouca diferença de idade. Quando Henrique nasceu, não sabia o que esperar do relacionamento dos dois. Sentia uma combinação de expectativa positiva mas também de medo. E se brigarem demais? E se um não apoiar o outro? E se não forem, sei lá, amigos? Poderiam, ao menos, não serem inimigos?

Até hoje guardo com muito carinho os vídeos e fotos que fiz da primeira vez que o Frederico viu o Henrique. Eu havia buscado ele na escola e ele já sabia que a mamãe estava no hospital com o mano que já tinha nascido. Frederico, ao entrar no quarto, deu aquele sorriso largo característico dele e oferecemos o Henrique para ele pegar no colo. Nesse momento, ele virou o irmão mais velho. Sem hesitar, Frederico disse sim. Foi um dos momentos mais lindos que já presenciei. Desde então, Frederico diz todos os dias sim à existência do irmão mais novo e o aceita em sua vida com muita alegria.

Eles brigam? Sim. Também todos os dias. Às vezes vigorosamente. Na maior parte das vezes são apenas disputas de colo e brinquedo. E o que mais guardamos na memória são os momentos de afeto sincero entre os dois, que ultrapassam em muito os de conflito.

Inúmeras vezes, quando o Henrique estava chorando, Frederico se aproximava e dizia: “Ele quer eu!”. E era verdade. Eles começavam a interagir e Henrique mudava de humor imediatamente.

Em outros momentos, quase não dava certo a nossa saída planejada apenas com o filho mais velho porque, segundo ele, “o Henrique vai ficar com saudade”. E ficava, mesmo. Muitas vezes, voltando de um passeio, Frederico ia primeiro conferir como estava o irmão, sem abraços ou beijinhos no papai e na mamãe. “Eu quero brincar com o Henrique! Põe ele no chão!”

Um dia, Henrique não queria comer mas queria comer. Tudo ao mesmo tempo. Tentávamos oferecer a janta mas ele não aceitava. Depois, chorava pedindo comida. Frederico chegou perto da gente e pediu pra dar comida pro irmão. Buenas, o que tínhamos a perder, não é mesmo? Frederico ajeitou a colher e Henrique comeu tudo. Há poucos dias vimos o contrário, Henrique estava dando comida pro Frederico, retribuindo o gesto.

Lembro bem quando Henrique estava chorando fazia vários minutos, e nada do que a gente fazia resolvia. Frederico matou a charada de primeira: “Ele quer água!”. E não é que era isso mesmo? Henrique bebeu um copo de água sem respirar. Já havíamos oferecido poucos minutos antes, nem passou pela nossa cabeça dar mais água. Mas Frederico acertou, Henrique parou de chorar, e eu e Carol ficamos olhando um para a cara do outro, pensando se funcionaria melhor se a gente se afastasse um pouquinho e deixasse os dois interagirem mais ainda.

Em mais de um dia, quando o Henrique acordava, só ficávamos sabendo um tempo depois, pois Frederico descia do beliche e brincava com o mano em voz baixa. Só descobríamos minutos depois, quando não conseguiam segurar a bagunça e o falatório, muito menos a luz acesa.

Henrique, sempre que pode, deita a cabeça no ombro do Frederico e dá leves tapinhas no braço dele, como quem diz “vou dormir por aqui mesmo”. Frederico adora os abraços do irmão.

Em suma, eu nunca imaginei a interação que os dois têm e o carinho que demonstram. Espero que construam um relacionamento sólido, que se apoiem e que possam contar um com o outro nos momentos felizes e tristes.

Mas as dúvidas permanecem. Será que vão competir demais? Será que um vai sentir vergonha do outro na adolescência? Será que vão compartilhar amigos? Não guardo expectativas, mas tenho esperança de que sigam o bom caminho que já estão trilhando.