O Que a Palmada Ensina? Por Que as Pessoas Defendem Tanto a Palmada?

O Que a Palmada Ensina? Por Que as Pessoas Defendem Tanto a Palmada?

06/07/2020
Thiago Queiroz

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A palmada ensina muita coisa sim, mas provavelmente não é o que você imagina. Como interromper o ciclo de violência, e será que palmada é violência mesmo?

Se você cometer o mesmo erro que eu e ler alguns comentários na internet em qualquer postagem sobre palmada, você vai se deparar com falas assim:

— Gostaria de saber que fim teria o mundo se não houve uma boa palmada aquele que não fosse advertido uma vez.

— Um tapa na bunda como último recurso, quando todas as demais tentativas falharam às vezes é necessário.

— Levei muita palmada e lapada dos meus pais. Hoje sou homem digno na sociedade, palmada não machuca.

— As crianças funcionam como cachorros. Em últimos recursos é necessário sim algum contato físico para educar, mas não “espancar” todo dia.

— Palmada é bem diferente de espancamento. Palmada tem momento certo, idade certa e medida certa.

Não existe essa de “eu apanhei e está tudo bem”. Essa frase já é a prova de que não está tudo bem, porque ela demonstra como a violência se naturalizou dentro do agredido, perpetuando o ciclo de violência através das gerações.

Ninguém merece apanhar, ninguém merece ser agredido, ainda mais uma criança. Mas vamos à pergunta central:

O que a palmada ensina?

Sim, ela ensina 4 coisas quena criança vai levar para o resto da vida, inclusive sua vida adulta.

  1. ela ensina que, em uma discussão, o mais forte ganha.
  2. ensina também que, em uma disputa, é aceitável usar da violência.
  3. ensina, por consequência, que se a mesma mão que oferece amor também oferece dor, que a violência é uma forma de expressar o amor.
  4. por fim, ela ensina a naturalizar a violência.

Agora, pegue esses quatro ensinamentos que são aplicados diariamente em tantas crianças, e transfira isso para o mundo adulto. Por que você acha que a violência é tão naturalizada hoje em dia?

É nosso papel lutar para que a infância esteja cada vez mais afastada da violência e, por isso, precisamos ter um papel ativo contra qualquer tipo de conteúdo que veicule violência contra crianças.

Entendendo os defensores de palmadas

É curioso como uma parte das pessoas sempre defende com unhas e dentes a palmada, quando esta é a pauta da discussão.

Por isso, eu gostaria de conversar com você sobre o que leva uma pessoa a defender com tanto empenho a palmada, utilizando argumentos como:

— Palmada é palmada, é leve e não é nem violência. Não é como se estivéssemos espancando a criança.

— Eu apanhei e tô aqui, vivo e muito bem.

— Se não apanhar em casa, vai apanhar no mundo e será bem mais grave.

Eu entendo que é muito difícil para as pessoas reconhecerem que palmada é violência, e esse é um dos pontos mais difíceis do processo de quebra do ciclo de violência.

Entender isso pode ser dolorido, porque leva uma pessoa que apanhou a vida inteira à conclusão inevitável e precipitada: que seus pais não os amavam.

Os pais que não amavam seus filhos

Claro, não somos uma legião de filhos cujos pais nos odiavam (não a princípio), mas entender a palmada como algo danoso também passa por entender que os nossos pais fizeram o melhor que podiam, com a informação que tinham, e no contexto social-histórico em que estavam inseridos.

Não é questão de perdoar ou não, isso requer muita terapia, mas de criar consciência sobre o que ocorreu com você. E quando você entende isso, está mais perto de quebrar o ciclo de violência.

Além disso, claro, existem as pessoas que já batem em seus filhos, e se deparar com essas informações também é dolorido, porque coloca em cheque o seu amor pelos seus próprios filhos. E nós amamos os nossos filhos, não?

Sim, claro. E justamente porque você ama o seu filho que você deveria se comprometer a empregar os seus esforços para quebrar esse ciclo, buscando mais informações, ajuda profissional, criando novos combinados.

É difícil à beça, eu reconheço, e requer um trabalho diário para que se mude um contexto de violência, mas se existe uma coisa que devemos concordar aqui é isso: nossas crianças merecem e valem esse esforço da nossa parte.